“Voltar ao Brasil depois de tantos anos trabalhando fora mudou meu jeito de olhar para publicidade que fazemos aqui.
Foram quase nove anos no Oriente Médio, entre Jordânia, Qatar e Dubai, e dois anos e meio na China, fora um pulo aqui e ali em outros lugares. Vi jeitos bem diferentes de fazer o mesmo trabalho acontecer. E a pegada brazuca era parte do que procuravam quando me chamavam. O craft, o pensar local, o achar uma solução com pouca grana e muito cuspe.
Na Jordânia, meu DC dizia que era fã do humor brasileiro, mas me lembrava sempre que estávamos na Jordânia, ahahahaha. Na China, me pediam propaganda com emoção. Eu vinha de uma publicidade em que emocionar muitas vezes era fazer rir. Lá, me pediam para fazer chorar.
Queriam minha bagagem, mas eu ainda tinha que entender com quem estava falando. Meu repertório era brasileiro. O público não.
Trabalhar fora me obrigou a prestar atenção no jeito de cada lugar. Na volta, foi justamente o nosso que senti falta de ver. Lembro de quando o intervalo comercial era tema de conversa na mesa de jantar!
Nas campanhas que tenho visto, a malemolência, o humor, nosso jeito de contar histórias meio que sumiram. Aquela solução com uma cara só nossa, que só poderia ter saído daqui, ficou mais rara de ver. Tem campanha hoje que poderia vir de qualquer lugar.
E se olharmos o que tem sido feito pra festivais, então, nem se fala. Os videocases meio que criaram um jeito próprio de pensar “publicidade”. Você assiste, acha tudo fod@, mas quando espreme, vê que o case muitas vezes é a ideia.
Hoje parece que tudo tem que ficar mais “internacional”. Se parte do que interessava no nosso trabalho era justamente esse jeito brasileiro de resolver, o que ganhamos abrindo mão dele?
Tá faltando aquela “maldade”, a sacada, a zoação que não entrega tudo mastigado e deixa uma parte para quem está do outro lado. A graça de confiar que a pessoa vai entender. E de ver seu vizinho comentando. Não só o vizinho de mesa ali na agência.
Voltei para o Brasil e achei que ia reconhecer mais a gente na propaganda. Mas estou sentindo falta de ver um comercial e ficar com vontade de comentar na mesa de jantar.”
Fabio Caveira é diretor de arte






















