• Estudo que será apresentado na Rio Innovation Week 2026 aponta novos caminhos para o Rio de Janeiro

    Conhecido internacionalmente por suas paisagens, sua produção cultural e seu estilo de vida, o Rio de Janeiro também convive com desigualdade territorial, problemas de mobilidade e insegurança. Dados reunidos pelo estudo Transforma Cities, da Casa Mundo Latam, consultoria latino-americana especializada em inteligência de mercado, comportamento e tendências de consumo, mostram que 99% dos entrevistados apontam a segurança pública como o principal fator que prejudica a cidade.

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    O Transforma Cities reúne pesquisa qualitativa, dados da pesquisa quantitativa Rio Além da Bolha, entrevistas com profissionais de áreas como inovação, cultura, políticas públicas, empreendedorismo, sustentabilidade e direito à cidade, além de referências nacionais e internacionais sobre transformação urbana. O objetivo é compreender como o conhecimento sobre os territórios pode orientar políticas públicas, projetos privados e ações sociais mais humanas, eficientes e sustentáveis.

    O estudo propõe olhar para o Rio de Janeiro como um organismo vivo, formado por pessoas, histórias e relações. A partir dessa perspectiva, investiga como o conhecimento sobre os territórios pode contribuir para decisões mais humanas, eficientes e conectadas à realidade da cidade.

    Entre os entrevistados, formação e capacitação aparecem como um dos principais desafios para 73%, seguidas pela desigualdade social, mencionada por 70%, e pelo ambiente de negócios, citado por 54%. Os resultados sugerem que, embora a segurança pública seja a principal preocupação da população, os desafios percebidos pelos entrevistados vão além da violência e envolvem fatores estruturais relacionados ao desenvolvimento social, à formação e à capacidade da cidade de gerar oportunidades.

    Entre o cartão-postal e a cidade real

    O estudo parte de um contraste presente na identidade carioca. De um lado, está o Rio conhecido internacionalmente por sua paisagem, criatividade, patrimônio cultural e vocação turística. A cidade mantém uma economia criativa ativa e ocupa o posto de segundo maior PIB do Brasil.

    Do outro, aparece uma cidade marcada por desigualdades. Barreiras físicas e simbólicas separam o Centro, a Zona Sul e a Zona Norte, enquanto problemas de mobilidade dificultam o acesso entre as diferentes regiões. O material também aponta a fragilidade da articulação entre poder público, empresas, comunidades e instituições, o que faz com que iniciativas com potencial de transformação permaneçam isoladas e percam força coletiva.

    Essa distância entre o Rio conhecido por quem está de fora e aquele vivido diariamente pela população ajuda a explicar por que a cidade ainda encontra dificuldades para transformar sua potência cultural, econômica e criativa em um desenvolvimento mais integrado.

    Adriana Hack

    O Transforma Cities também é resultado da trajetória de Adriana Hack, fundadora e diretora executiva da Casa Mundo Latam e Fátima Rendeiro, líder e estrategista da Rendeiro Consult e diretora de Relações com Mercado do Grupo de Mídia do Rio de Janeiro (GMRJ), pesquisando o Rio de Janeiro. Ao longo dos últimos anos, ambas vêm desenvolvendo estudos sobre identidade, comportamento e território na capital fluminense, experiência que serviu de base para a construção da metodologia apresentada.

    Transformações que já estão acontecendo

    Apesar dos desafios, o levantamento mostra que o Rio de Janeiro não está parado. Diferentes iniciativas já atuam na transformação dos territórios por meio da cultura, da educação, da comunicação, do empreendedorismo e da inovação social.

    Entre os projetos mapeados estão Redes da Maré, Casa Amarela, Feira das Yabás, Favela Orgânica, Lab Jaca, Gato Mídia, Flup RJ e Afrofunk Rio. Embora tenham formatos e áreas de atuação diferentes, essas iniciativas têm em comum o fato de nascerem do conhecimento sobre os territórios e da participação de quem vive em cada comunidade.

    O estudo também analisa iniciativas que vêm transformando a Zona Portuária, como a retirada do Elevado da Perimetral, a implantação do VLT e a chegada de equipamentos culturais, como o Museu do Amanhã e o Museu de Arte do Rio. O Porto Maravalley aparece como parte desse processo de reposicionamento da região como um polo de tecnologia, inovação, moradia e economia criativa.

    Na Pequena África, projetos voltados à preservação da memória afro-brasileira e ao fortalecimento do afroturismo mostram como identidade e desenvolvimento econômico podem caminhar juntos. O programa Viva Pequena África, por exemplo, recebeu investimento de R$5 milhões do BNDES para fortalecer a cultura negra e o turismo na região.

    Além dos exemplos brasileiros, o Transforma Cities reúne referências internacionais que mostram como as cidades podem transformar desafios históricos em oportunidades de desenvolvimento.

    Quando o conhecimento local orienta decisões

    A metodologia do Transforma Cities organiza a transformação dos territórios em quatro frentes. A primeira é mapear o que está acontecendo dentro e fora da cidade, identificando experiências que possam inspirar novos caminhos. A segunda é reconstruir a trajetória do território, considerando seus marcos, desafios e potencialidades. A terceira busca compreender o “DNA” de cada lugar, formado por sua identidade simbólica, cultural e social. Por fim, a metodologia propõe conectar as pessoas e suas experiências aos processos de transformação, reconhecendo quem vive no território como parte central das decisões.

    A proposta parte da ideia de que mudanças aparentemente pontuais, como a abertura de um mercado, a revitalização de uma praça ou a criação de um equipamento cultural, podem alterar a dinâmica social e emocional de uma região. Por isso, compreender as relações que sustentam cada território e incorporar a escuta das comunidades ao processo são etapas essenciais para construir transformações mais conectadas à realidade local.

    “Não existe uma fórmula única para transformar uma cidade. Antes de pensar em soluções, é preciso entender as pessoas, as relações e a identidade de cada território. Quando esse conhecimento orienta as decisões, políticas públicas, projetos privados e iniciativas sociais têm mais chances de gerar mudanças que façam sentido para quem vive naquele lugar”, avalia Adriana Hack, fundadora e diretora executiva da Casa Mundo Latam.

    Fátima Rendeiro

    Segundo Fátima Rendeiro, o principal diferencial da metodologia está em compreender o território antes de propor qualquer transformação. “O Transforma Cities parte de uma premissa simples: nenhuma cidade pode ser transformada sem antes ser compreendida”.

    O Transforma Cities será apresentado por Fátima durante o painel ‘Territórios, Identidade e Vocação: o futuro nasce do lugar, no Rio Innovation Week 2026.

    Renata Suter

    Jornalista e coordenadora do Prêmio Colunistas Rio, Centro-Leste e Espírito Santo, Renata Suter é editora-chefe da Janela Publicitária

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