• O etarismo das interfaces: quando o design exclui quem mais cresce. Por Luciana Vasconi

    Luciana Vasconi, sócia da 3mais, pensa e fala como poucos sobre um assunto cada vez mais necessário  debater: etarismo. Precisamos conversar sobre o tema. Ouvir, ler, saber, conhecer; sem preconceitos, sem piadinhas bobas.

    Publicidade

    Porque se há algo nesta vida que sabemos é que envelheceremos, aliás, estamos envelhecendo, todos nós. O olhar de cada um pode fazer toda a diferença e a Janela abre essa conversa com o oportuno texto da Luciana.

     

    “Tenho acompanhado, ao longo da minha carreira, muitas ondas de transformação no consumo e na comunicação. Mas poucas vezes vi uma contradição tão evidente como a que enfrentamos hoje: nunca se falou tanto em inclusão e diversidade, e ao mesmo tempo, nunca foi tão grande a invisibilidade do público 60+ nas interfaces digitais.

    Um erro recorrente é tratar o público 60+ como homogêneo. Essa faixa etária é plural: reúne pessoas que migraram de mundos analógicos para digitais, mas também quem já empreende online, consome cultura em streaming e investe em criptoativos. Reduzir essa diversidade a um único perfil é excluir.
    Quando designers criam interfaces “para idosos”, partem de estereótipos. E o resultado é um produto que não conversa com ninguém.

    Pesquisas científicas já mostraram que a dificuldade de pessoas maduras em interagir com plataformas não é resultado de limitações cognitivas ou resistência ao novo. O problema está no design. A usabilidade ruim não é falha do usuário, mas de quem projetou.

    Culpar o consumidor é o caminho mais fácil — e o mais equivocado.

    Defendo que trazer os 60+ para dentro das pesquisas e bancos de dados é um passo estratégico. Não se trata apenas de representatividade, mas de precisão. Ao incluir diferentes perfis etários nos datasets, quebramos estereótipos e refinamos campanhas, segmentações e recomendações.

    Aliás, essa ausência de dados explica por que tantas IAs, que prometiam transformar a vida do público maduro, acabam reproduzindo preconceitos: foram treinadas em bases que simplesmente ignoram essa população.

    Outra ilusão é acreditar que investir em acessibilidade custa caro. Pelo contrário: um design inclusivo aumenta a taxa de conversão e a retenção de usuários. Tornar uma interface mais intuitiva para um público 60+ melhora a experiência para todas as idades.

    A conta é simples: acessibilidade não é despesa, é retorno.

    Mesmo estereótipos bem-intencionados são limitadores. Pintar os 60+ como “resilientes” ou “avós conectados” é reduzi-los a um rótulo. Pessoas não cabem em caixinhas. E quanto mais o mercado insistir em simplificar esse público, mais oportunidades deixará passar.

    O etarismo das interfaces se manifesta não apenas na ausência de usabilidade, mas também nos bastidores. A população 60+ é frequentemente ignorada nos processos de concepção e teste de produtos digitais. Invisibilidade no design gera exclusão no consumo.
    É hora de romper com essa lógica.

    O etarismo digital não é detalhe: é uma barreira de acesso à cultura, ao consumo e à inovação. Enquanto isso, o público maduro expande seu poder econômico e sua presença cultural em ritmo acelerado.

    Como profissional e mulher 60+ afirmo que o público no qual estou inserida não é nicho. É a nova locomotiva da inovação, do consumo e da cultura digital.”

    Renata Suter

    Jornalista

    Envie um Comentário

    O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


    seta
    ×