Presidente do Júri de Rádio em Cannes 2017, Mario D’Andrea fala sobre a crise nesta mídia

Mario D'Andrea

EXCLUSIVO – Parece ironia, mas no ano em que um brasileiro — Mario D’Andrea, presidente da Dentsu Brasil — vai presidir o júri de Rádio do Festival de Cannes, esse veículo passa por uma de suas maiores crises desde que a primeira transmissão radiofônica foi realizada no país, no dia 7 de setembro de 1922, pela Rádio Sociedade do Rio de Janeiro. Neste mesmo Rio, fecharam recentemente as rádios Cidade e MPB FM, além de a Tupi ter seus funcionários atualmente em greve. E em Minas, no final de 2016, fechou a Rádio Globo.

Mario D’Andrea não tem dúvidas em declarar, conversando com a Janela, que “o modelo tradicional de rádio tem problemas”. Mas ele ressalva que o veículo rádio, não.

– “O rádio é o veículo que melhor aproveitou a tecnologia digital até agora. Em 2013, 30% dos smartphones tinham aplicativo de rádio. No ano passado, já eram 90%. O acesso ao rádio via internet atualmente é absurdo. Segundo o Ibope, 20% do consumo da mídia rádio pelo brasileiro já é feito através do celular ou do computador. Não por acaso, já noticiaram que, na Inglaterra, só este ano, 2,2 milhões de carros sairão da fábrica com rádio digital instalado. A procura é a mesma como tínhamos, antigamente, de querer carro que já viesse com toca-fitas”, opinou o publicitário.

D’Andrea ainda lembra que, até do ponto de vista operacional do negócio, o digital permitiu que o rádio se salvasse da queda a que estava fadado a ter.

– “Agora, sem o custo de produzir cópias físicas das peças para veiculação, ficou muito mais barato para fazer rádio no Brasil todo”, explicou.

E quem leva a culpa?

Para o presidente do júri do Radio Lions deste ano, tem culpa pra todo mundo pela crise do rádio no Brasil. E percebemos que, inclusive, dos próprios diretores comerciais das emissoras, que, sem se darem conta da oportunidade, sequer entraram em contato com Mario D’Andrea quando seu nome foi oficializado pela organização do festival.

Mario alfineta os criativos brasileiros também:

– “Cada vez temos menos gente que saiba escrever bem, e rádio, na maioria das vezes, depende de um bom texto para convencer as pessoas”, alerta o diretor da Denstu.

Ele aponta a formação escolar do brasileiro — que pouco lê — na gênese da dificuldade que as novas gerações de publicitários têm para colocar suas ideias no papel.

Tem solução?

A expectativa de Mario D’Andrea sobre a qualidade do que vai julgar em Cannes este ano é bastante alta, porque outros países já estão utilizando bem as alternativas digitais do meio rádio. Enquanto isso, ele dá suas dicas de como aproveitar bem um fonograma dentro da realidade brasileira:

– “O criativo tem que lembrar sempre que o rádio é, seguramente, o mais íntimo dos veículos de comunicação. É preciso ter intimidade e descontração com quem está ouvido. E a última coisa que você quer com um amigo intimo é ser chato. Por outro lado, não dá para esquecer que o rádio só é ouvido com o consumidor em modo multitarefa. O sujeito pode estar dirigindo ou trabalhando enquanto ouve seu rádio ou seu Spotify. Portanto, é preciso chamar a atenção e despertar uma ferramenta que é de graça mas é supervaliosa: a imaginação do consumidor”, assinalou D’Andrea.

E o publicitário também alerta: “Vamos parar com a preguiça de botar o áudio do filme na peça de rádio. Ninguém pega um frame do filme para botar no outdoor, não é mesmo?”, brincou.

Marcio Ehrlich

Jornalista, publicitário e ator eventual. Escreve sobre publicidade desde 15 de julho de 1977, com passagens por jornais, revistas, rádios e tvs como Tribuna da Imprensa, O Globo, Última Hora, Jornal do Commercio, Monitor Mercantil, Rádio JB, TV S e TV E.
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